quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

A.VISEU - EQUIPA DA SEMANA

Viseu em boas mãos

Se resistir às derrotas fosse tão simples como o percurso do Académico de Viseu faz supor, a equipa de António Lima Pereira, que só perdeu na segunda jornada da Série C do campeonato da III Divisão, não estaria só agora, após a 17ª ronda, a três pontos da concorrência. O campeonato é renhido, mas, o emblema de Viseu, renascido das cinzas do Académico local que o primeiro escalão conheceu e as dívidas condenaram à extinção, em 2005, está em boas mãos - a expressão que a memória remete para cuidados de saúde aplica-se, aqui, no sentido literal, uma vez que Nuno, o guarda-redes titular, é enfermeiro.

Aos 32 anos, está onde sempre sonhou. "Fiz aqui a minha formação. Vinha aos jogos com o meu pai, na I Divisão", sorri, ao recordar que, quando foi para o Penalva do Castelo, o vizinho onde defendeu uma década, o pai continuou a preferir ir ver o Académico de Viseu. Essa paixão pelas raízes que Nuno herdou não é caso único no plantel e nem sequer na baliza. Quando Nuno chegou a sénior, logo no primeiro ano, foi terceiro guarda-redes do companheiro que agora tem como suplente. Augusto, 37 anos, capitão de subidas e descidas, em 17 épocas no clube, também veste a camisola do sonho de devolver o emblema às competições profissionais, ainda que a meta pessoal se coloque no regresso à II Divisão B, no final da época, que fará coincidir com o da carreira. "Comecei com uma subida à II Liga, seria bom acabar com uma subida, também", admite, com uma convicção prudente. Mesmo com um percurso que, em Portugal, só encontra melhor no Benfica e no Farense, invictos na Liga ZOn Sagres e na Série F da III Divisão, o campeonato não deixa respirar o líder, que mistura o futebol ambicioso de António Lima Pereira com doses extras de amor à camisola. "Eu sou daqui", dizem, orgulhosos, no Fontelo.

Marco Almeida foi à China antes de regressar a casa
Para lá do facto de serem orgulhosos trintões, Marco Almeida, Luís Vouzela e Rui Dolores têm em comum um currículo feito no futebol profissional, que faz com que os nomes deles sejam familiares à generalidade dos adeptos. Todos eles chegaram, até, a conhecer a condição de emigrantes: Chipre foi o destino dos dois últimos; Marco Almeida foi mais longe, chegou à China, mas, quando decidiu pensar no futuro a longo prazo, não hesitou e soube qual a camisola que mais lhe convinha. "Quando voltei para Viseu, o meu clube, a minha cidade", sublinha, "foi também para estudar". Escolheu Turismo e, quando não está de volta do curso, calça as botas para trabalhar nessa outra forma de promoção de Viseu. "O futuro passa por tentar ajudar o clube, o melhor que posso. Tem potencial para, pelo menos, estar na II Liga", acredita quem se habituou a ver o emblema como um símbolo da cidade e da região que, em 1989, ficou órfã de futebol de primeira e, desde então, viu o mapa das competições profissionais excluir quase todos os representantes do interior, até restar, apenas, o Covilhã.

Renascido das dívidas

Embora se prepare para festejar o centenário, em 2014, o Académico de Viseu nasceu em 2005. António Silva Albino e José Cabido foram os fundadores do emblema que pretendeu dar continuidade ao Clube de Futebol Académico, extinto em consequência de dívidas que rondam 1,4 milhões de euros. A última das três épocas do emblema viseense no primeiro escalão foi em 1989.

Curiosidades

Licenciados

Além do guarda-redes Nuno, há outro enfermeiro no plantel, um dentista e um jovem prestes a concluir a formação como fisioterapeuta.

Herdeiro

Para legitimar a continuidade do emblema, o Académico de Viseu comprou todos os troféus do extinto Clube de Futebol Académico, em 2005. Herdou uma sala cheia de memória.

Ecléctico

O clube movimenta 500 futebolistas e, no total, cerca de um milhar de atletas (natação, andebol, atletismo e pesca desportiva).

O presidente

Nome: António Silva Albino (65 anos)

Profissão: Empresário de metalomecânica

Rigor é regra

Aos 65 anos, António Silva Albino anda contente com o rumo do Académico de Viseu, mas, quando se lhe fala em subida, o homem que, na refundação do clube, em 2005, traçou o regresso ao escalão principal como meta é o primeiro a avisar que "não se vai entrar em euforias". O regresso ao terceiro escalão, que lhe dá, brinca, o estatuto de "repetente", ensinou-lhe esta prudência. "Gostava de ver mais gente no estádio" a acompanhar a equipa, mas o presidente que fez questão de que nos estatutos do clube constasse a obrigatoriedade de deixar as contas em dia orgulha-se de poder dizer: "Andamos de cabeça bem levantada".

O treinador

Nome: António Lima Pereira (45 anos)

Profissão: Treinador de futebol

Futebol no ADN

Lima Pereira é sinónimo de futebol, na família poveira que tem no tio do treinador do Académico de Viseu o expoente máximo: "o" Lima Pereira, do FC Porto campeão europeu de 1987. Há outros, os irmãos Paulo (treinador-adjunto do Trofense) e Miguel (terminou a carreira no Leça) e está a despontar uma nova geração, com o filho, Tiago, central do FC Porto. António Lima Pereira, antigo defesa do Varzim e Rio Ave, entre outros, vê no Académico de Viseu as condições e o momento certo para consolidar a carreira de treinador, que já conheceu outro emblema renascido da crise, o do Felgueiras.

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